• EXPOSIÇÂO MULHERES MARAVILHOSAS! Vamos desconstruir os estereótipos relacionados ao corpo negro?

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Por que uma exposição só com mulheres negras? Porque representatividade importa! Materialidade também. O que de fato estamos fazendo para mudar a realidade que nos incomoda? Como fazemos uma arqueologia que contribui e é relevante para os problemas que afligem o mundo contemporâneo? Racismo é crime. Nos oprime, mata e desaparece (SOUZA, 2021, p. 59)

Esta exposição é fruto de uma proposta de doutorado, que tem por interesse evidenciar as diferentes relações que a mulher negra Pelotense tem com o seu próprio corpo. Nós estamos buscando através da arqueologia repensar de maneira crítica (VELHO, 1999) padrões e enquadramentos relacionados à beleza e à aceitação, entendendo imposições às mulheres negras de abrirem mão de suas características e traços naturais em nome “do belo”. Reconhecemos isso como uma das formas de materialização da violência estética.  Através das imagens e relatos, gostaríamos de debater questões ligadas às questões raciais, pensando as permanências do racismo nos discursos e espaços que essas mulheres negras frequentam e lidam diariamente.

Quando olhamos para as mulheres atualmente, é possível perceber que este público é constantemente bombardeado com propagandas, dicas, segredos, notícias, sobre como deve ser o “corpo perfeito”, sobre a estética que é preciso assumir para se enquadrar neste “padrão de beleza”. Como parecer mais magra (dieta ou roupas)? Como parecer mais jovem (maquiagens, diversos tratamentos estéticos, skincare)? Como parecer saudável (e o que é um corpo saudável?). A sociedade praticamente nos impõe a adesão à, ao menos uma, dessas “estratégias” de beleza. No entanto, quando olhamos para as mulheres negras, as cicatrizes e cobranças são muito mais profundas.

Lélia Gonzales (1984) nos destaca que as mulheres negras são duplamente oprimidas – preconceito de gênero e pela cor. Quando olhamos para o corpo negro, geralmente, estão associados a estereótipos negativos. Tudo isso é fruto da construção de um imaginário que acontece desde o período da escravidão em nosso país, que destaca que o corpo negro, da mulher e do homem, é resultado de uma representação social, imposição de poder, objetivação e sexualização (TEIXEIRA, QUEIROZ, 2017; GOMES, 2003).

Antigamente, os padrões europeus/ brancos eram utilizados como parâmetro para dizer o que era belo ou não, e isso acabou resultando no quê? Na destruição de componentes estéticos ligados ao corpo negro, afetando mais especificamente as mulheres, como por exemplo, o corpo e o cabelo. Para que as mulheres negras conseguissem se encaixar no modelo aceito socialmente, muitas vezes, branqueavam seus traços. E hoje isso ainda é uma realidade, quando olhamos com mais atenção para a indústria da moda, cosméticos, mídia, entre outras.

É realmente um desafio pensarmos o processo de construção de uma identidade negra que seja positiva, em um país que desde processos iniciais, sempre formulou estereótipos negativos e ensinou a pessoa negra que para que ela fosse aceita, era preciso negar a si mesma (GOMES, 2003).

Que estas mulheres inspirem muitas outras a olharem para seus corpos de forma diferente!

Sou Ana Lúcia Duarte- tenho 41 Anos, sou natural de Pelotas, hoje moro em Porto Alegre.

As vezes através da dor do corpo, da alma … Se traça um novo caminho com descobertas jamais imaginadas, tinha uma vida plenamente ativa, trabalho, viagens, musica e a dança… Em 2011 tive uma fratura que mudou minha vida… Tive de parar, desacelerar tudo, primeiro a preocupação com o aprender a me movimentar desde o mais básico como ficar em pé com equilíbrio a voltar a ter o corpo que eu tinha e dançar…

 A superação de ver o tempo passar deitada… Peso aumentando… Cabelo quebrando…a aceitação de que tudo iria mudar, porém não sabia qual o rumo nem a que ponto… A dor física, o abandono do salto alto, pois mal conseguia calçar um tênis já que meu pé ficou com limitações…

É… meu pé não tem mais toda curvatura, ficar num pé só com a perna direita desequilibra… Muito tempo deitada sinto dor, em pé também, sentada também…

Mas descobri algo que mudou minha vida…” este é meu corpo, e devo amar e cuidar dele com todas variações que ele tem…

Descobri que a dança não é o único meio de expressar a arte pois eu canto e intensifiquei de outra maneira …

Hoje vejo que a minha fé foi o que me fez acreditar que por mais vago e difícil que fosse o futuro era o meu futuro e aprendi a me amar, minha fé e meus orixás onde sempre me refugiei, acreditei e orei me ajudaram a ter dignidade de mesmo com limitações evoluir como pessoa…

Hoje, aprendi a conviver com as limitações… Tenho uma vida muito diferente da que eu tinha, amadurecendo a cada dia…com a fé nos Orixás…

Como filha de Oxum eu sou vaidosa, mas além de todos os preceitos de agradecimento olhar a cicatriz me encorajava pois eu via a Vitória de tudo que passei, mas também trazia vergonha da marca… Da perna diferente da outra…pela cicatriz e inchaço…

Então decidi carregar na minha pele a figura de dois Orixás que foram fundamentais para que eu não perdesse todos os movimentos… Largasse a moleta, andasse pé ante pé com as minhas próprias pernas aprendendo a movimentar minha vida por novos caminhos…

Ossanha … Orixá curador do corpo físico principalmente das pernas…

Yansã… Orixá da movimentação, da dignidade e força feminina, guerreira, vitoriosa.

Hoje olho a figura deles cobrindo a cicatriz e o que tenho é o meu sorriso e muito amor, pois por onde quer que eu ande, minha fé sempre estará a me guiar e a superar qualquer adversidade na minha vida.

Sou Patrícia Fernandes Mathias Morales, mulher negra, Museóloga e Mestra em Antropologia -(UFPEL).

“Por alguns anos questionei meu sorriso, pois nasci com uma pequena fresta entre os dentes. Na infância na escola era motivo de risos dos colegas, cresci e quando tive condições financeiras fui procurar uma forma de arrumar essa separação dos dentes, e logo a dentista falou pra mim que não era nada de errado, que o meu problema seria mais um caso de estética e que não precisa usar aparelho. Mas devido as piadas e risadas coloquei o tal aparelho fiquei alguns anos, eles se juntaram mais logo a dentista me disse, pra eles continuarem assim juntos você vai tem que usar o aparelho para o resto da vida, resolvi tirar o aparelho. Feito isso procurei pessoas que também tinham essa fenda entre os dentes chamada diastema e logo me deparei com muitas pessoas pretas lindas sorrindo, foi quando descobri que a diastema é uma herança africana e que em algumas culturas Africanas é considerado um símbolo de fertilidade, atração e sedução. A partir do momento que descobri que eu tinha esse privilégio de trazer comigo além da minha cor mais também a diastema herança da minha ancestralidade, faço questão de tirar fotos com um sorriso largo e sou muito grata e feliz por ser diferente dos demais sorrisos, pois por onde passo com meu sorriso levo os meus ancestrais junto comigo”

Me chamo Simone Fernandes Mathias, sou bacharela e mestra em Antropologia pela UFPel, mulher negra, mãe e avó da Livia. Das minhas lembranças de criança, muitas cenas ficaram gravadas na memória, entra elas, a de minha mãe trançando meus cabelos, repartia e desenredava com o pente de dente largo e depois passava a escova, geralmente eram duas tranças, as vezes colocava fitas em cada ponta; eu gostava de fechar os olhos e sentir seus dedos separando meu cabelo. Além dela, minhas tias, avós e madrinha, também me faziam tranças.

Logo chegou a hora de ir para escola, ali eu não tinha a proteção da minha casa, eu queria que meus cabelos pudessem andar soltos, como os das minhas colegas, em sua maioria meninas brancas. Então eu comecei a compreender, o porquê de nós, meninas negras, vivermos de tranças: era a maneira de nossos cabelos ficarem comportados.

Chegou a adolescência, eu me olhava no espelho e não me achava bonita. Os meus cabelos, nessa trajetória, ganharam muitos apelidos, ‘’bombril’’, ‘’toca da minhoca’’, ‘’duro’’, ‘’sujo’’, dentre tantos outros que falavam do tom da pele, dos traços e do corpo. Então, comecei a alisar o cabelo, na esperança de me sentir bem, de ser aceita nos lugares, mas pouco adiantou, pois nosso cabelo é nossa essência. Fiquei escrava dos cosméticos para alisamento.

O tempo foi passando, conheci mulheres negras nesse mesmo processo. entrei para a universidade, entendi meu lugar de fala e, empoderada, comecei a transição. É um processo longo, muitas vezes pensei em desistir, cortar todo o cabelo. Essa mudança envolve muito choro, é demorada, mas também, há a solidariedade de outras mulheres. Mas foi gratificante para mim, deixar a chapinha, os grampos e as presilhas de lado. Foram trocados por lenços coloridos.

Hoje, meus cabelos vivem soltos e, também, em tranças, estas são especiais para mim, pois o trançar traz a nossa ancestralidade, nossas raízes e quem somos. Ontem, minha avó Ivaema trançou minha mãe e tias, minha mãe trançou eu e minhas irmãs, eu trancei minha filha Açucena e, hoje, ela e eu trançamos a minha neta Livia. Esse processo ancestral segue adiante… Nosso cabelo é nossa coroa, sei o quanto ele é lindo, ninguém vai me dizer o contrário. Eu luto diariamente para me construir como pessoa

Sou Sibele Oliveira Cruz. Eu diria que cheguei à puberdade muito cedo, fui precoce em todas as fases. Menstruei com 9 anos, mini seios começaram a aparecer e meu corpo começou a mudar. Estrias surgiram, celulites também. Minha mãe dizia que não era “normal” tantas marcas para uma garota da minha idade.

Aos 13 anos, notei que todas as minhas amigas da escola estavam desenvolvendo curvas e eu nada, continuava magrinha, reta.

Minhas amigas com o quadril super largo, bunda grande e eu nada. E nenhum dos meninos que viviam que corriam atrás dela, davam bola pra mim, o que era, na época, um grande problema.

Isso foi começando a me incomodar. As pessoas comentavam na rua que eu tinha a pele bonita, que eu era “a verdadeira mulata”, que eu iria vingar, que seria alta, que teria corpão.

E criei expectativas em cima dessas falas, cheguei aos 15 e ainda não me sentia bem com meu corpo, ele ainda não tinha mudado, as curvas ainda não tinham aparecido, e “a mulata” ainda não tinha vingado.

Até que me deparei com o vídeo da youtuber Nataly Néri, “a mulata que nunca chegou”, e foi um divisor de águas pra mim, ouvia ela falar sobre a própria experiência e parecia que estava falando sobre a minha, acredito que aquele foi o motivo para que eu começasse a estudar mais sobre questões raciais, para que eu entendesse o porquê  da minha auto cobrança pra ser “algo a mais”, da expectativa alheia sobre mim de que eu fosse ser mais e que a partir disso, eu fosse a escolhida pra ser fruto de desejo dos meninos que mal olhavam pra mim.

Parafraseando Nataly Néri: “A mulata não chegou… E aqui estou eu.” Infelizmente, o dip hips no meu quadril é algo que ainda me incomoda, admito que tem dias que desisto de sair por não me sentir bem comigo mesma ou desisto de usar um biquíni na frente de outras pessoas pelo receio dos olhares e comentários, porém não é mais um problema como anteriormente.

Sou Amarílis Gama da Esperança e Silva. Eu tinha uns 9 anos de idade quando minha colega de sala me perguntou se eu tinha alguma doença que deixasse minha gengiva tão escura como é. Mesmo eu negando e ignorando os comentários, ela fazia questão de comentar e afirmar para todos na volta que eu tinha alguma doença, pois segundo ela, não era comum uma gengiva escura como a minha. Não comentei com ninguém e passei uma boa parte da minha vida escolar evitando abrir demais a boca, rir demais ou encostar nos outros a ponto de repararem. Só anos depois, maior de idade e no meu primeiro emprego que, por meios financeiros próprios, procurei um dentista pra falar sobre isso e ele me explicar que era só MELANINA.

Sou Tereza Cristina Duarte e te pergunto: O que pode uma mulher Negra?

“Agora estão todas assim, “modernas”. Querendo ficar sozinha pra quê?  Não sei o que tu queres, te separando depois de velha…”

Foi o que ouvi, quando decidi terminar um relacionamento de 23 anos, em 2017, aos 42 anos.

Por muito tempo fomos reduzidas apenas a servidão e a hiper sexualização (e ainda somos!). Um corpo que pode ser agredido, desrespeitado, que não tem voz, intelecto ou sente dor. Nos fizeram desacreditar de nossa beleza. Demonizaram a nossa fé. Consideradas nada além do que um burro de carga, física e mental. Nos ensinaram que somos inadequadas, feias, pouco inteligentes e que sem um relacionamento (mesmo que seja tóxico), não somos nada.

Refletir sobre onde estamos e principalmente onde nos querem, é o primeiro passo para desconstruirmos o sexismo, principalmente quando atravessado pelo machismo e pelo racismo. Uma mulher negra pode tudo!!!! Pode ser o que quiser!!! Amar, ser amada, trabalhar, construir e produzir conhecimento em qualquer idade, com qualquer corpo.

Sou Roseane Duarte e esta foto define a minha relação de amor com meu corpo, negro, gordo, lésbico e com todas as suas marcas, manchas e cicatrizes, o que me trás ao mesmo tempo a luta quase que diária pela aceitação desse mesmo corpo que hoje reconheço como templo também da minha ancestralidade, corpo que amou e foi(é) amado, corpo que gerou e foi gerado.

Expõe o braço que não gosto, mas ele é a marca de todas as mulheres da minha família e isso me remete a fortaleça que somos umas para as outras, amo os meus olhos pois me vejo forte através deles, minhas manchas refletem a ligação e história ao meu Orixá, meu cabelo depois de muito ser escondido por baixo de tranças e mega hair hoje é meu maior orgulho por que através dele aceitei todo o resto com amor em poder hoje ser quem eu sou, do jeito que deveria ser sempre. Mulher negra, gorda e lésbica enfrentando esse padrão que por muitos anos foi me imposto “engolir”.

Eu sou Ledeci Lessa Coutinho. Amo meu corpo inteiro, pois ele é marcado por muitas histórias de luta, de muitas mulheres que vieram antes de mim. Esta parte que é meu ombro comecei a amar mais, quando decidi tatuar o modo como estas mulheres que me antecederam pensam e constroem um novo processo civilizatório. UBUNTU, eu só sou importante porque todas somos. Esta tatuagem é compartilhada com o ombro direito da minha filha kizzy Vitória, fizemos juntas pra nunca esquecer quem somos

Olá, sou Priscilla Teixeira da Silva. Eu cresci com os cabelos presos porque eram “altos demais”, eram “difíceis de cuidar”. Muito sofrimento eu já passei pra caber no padrão de pessoas. Hoje me reconheço como mulher negra e valorizo a beleza de cada um dos meus traços. Me vejo na minha irmã, nas minhas tias, na minha avó. Eu amo os meus cabelos crespos!! São a minha coroa!!

Eu sou Ana Carolina Pedra Rosa. De uns anos pra cá, acabei engordando e percebendo através de fotos antigas o quanto eu mudei. Cai no deslize de comparar o meu corpo com o de outras mulheres e sempre achava imperfeições no meu pois concluía que o meu não estava no “padrão”. Tentei duas vezes o processo de emagrecimento, mas acabei desistindo. Hoje em dia tenho vergonha de usar roupas justas e biquínis, estou em um processo de aceitar o meu corpo do jeito que ele é e começar a cuidar dele de uma forma mais saudável pra minha saúde.

Prazer, meu nome Ana Caroline Brochado da Silva, tenho 24 anos. Retrato hoje aqui, um pouco da minha história e vivências como uma mulher preta. Engraçado, como as grandes descobertas começam na escola. Dentro da minha família eu não recordo de sentir preconceito diretamente, mas sim indiretamente dos meus primos eles tinham quase a mesma idade que eu. Me chamavam de “tição”, “beiçola”. Sim, me incomodava muito! Ficava triste não tinha o poder de enfrentá-los e também nunca contei pros pais por acha que, sei lá, desnecessário.

Já na escola… Bom sempre fui uma criança quieta, eu era muito tímida pra falar então eu acho que isso aguçava as pessoas a mexerem comigo de uma forma insultante. Na 6° série eu queria ser a popular, toda adolescente quer, mas eu não tinha o padrão. Eu era magra, toda desajeitada, tímida e preta. Já fui chamada de “mocreia”, “titia cabeluda”.

Conforme foi passando os anos, eu me transformei nesse furacão, nessa mulher preta que é uma metamorfose, que fala que faz e acontece. Que defende a história de seus ancestrais com unhas e dentes e traz consigo essa força da mãe África.

 Ser negro é ser invisível, indesejável, tanto pra relacionamentos quanto para uma vaga de emprego. O padrão bonito prevalece às mulheres brancas, loiras de olhos azuis como desejáveis.

 Uma vez, estava gostando de um rapaz branco, a gente até teve uma relação por um tempo, mas sempre escondido e a noite. Certo dia perguntei a ele “porque não assume namoro comigo?”

Ele me respondeu: “Duas pessoas podem ter amizade colorida, sem levar a sério.”.

Eu fiquei pensativa, mas o que mais me chamou atenção foi de dia ele ficava com outra menina branca, saíam para todos os lugares.

 As qualidades sexualmente desejáveis são sempre aquelas associadas ao corpo negro, bundão, peitão e tu tiver cabelo crespo, menina, te olham apenas como uma mulher erotizada, e não amada. A mulher negra é um ser sensual não sexual, minha bunda é parte do meu corpo não atrativo.         

Minha cor não é do pecado. O pecado é você ser alguém incapaz de ver beleza num pigmento tão único.

Eu sou Macleidi da Luz! Em se tratando de discurso o que mais me incomoda são “elogios” ao meu corpo como se fosse um pedaço de carne. Coisas com cunho sexual do tipo “que gostosa” “tá pronta pro show” “uau, assim eu não resisto” e os olhares de desejo. Eu não sou só bunda, peitos ou coxas…

Eu fico tão feliz quando me falam “nossa que sorriso lindo”, “tua energia é tão boa”, pois estão enxergando além.

Com relação aos meus traços, por muito tempo me considerei feia, por causa do meu nariz ser mais largo. Demorei, mas aos poucos estou conseguindo me aceitar, não é fácil, pois todos os dias vemos na tv, nas redes sociais, que bonito é ter nariz fino e pele clara.

É um processo longo, mas é libertador se olhar no espelho e não ficar procurando defeitos em si.

Além disso, a convivência com outras mulheres negras me faz sentir mais segura com relação a essas questões. A gente vai se ouvindo, se acolhendo.

Olá! Sou Helena Almeida. Quando mais nova eu acreditava que meus traços significam que eu não era bonita. Deixei de usar batons nas cores que eu gostava, deixar de usar o volume do meu cabelo da maneira que ele tinha, até mesmo minhas roupas eram discretas, pois eu não me sentia bem com meu próprio corpo. Demorei anos para entender que as características de pessoas negras também são belas porque infelizmente, tive uma criação que cultivava estes pensamentos e após muito estudos sobre racismo, estética negra e mulheres negras, passar pela transição capilar, cuidar de mim e conversar com outras mulheres pretas, eu comecei um processo de autoaceitação e amor próprio diário. 

Atualmente sinto que estou diferente, mas é preciso estar sempre me cuidando com estes pensamentos. Pensar no que os outros irão achar sobre mim ou acreditar que minhas características sejam “erradas” é o meu maior erro. Não há nada de errado comigo, muito pelo contrário, tenho orgulho do que eu sou! Me acho bonita e principalmente acho todos os meus traços bonitos! E toda vez que eu penso nas coisas que deixei de realizar por conta da minha aparência, pelo fato de eu não me aceitar, eu me arrependo.

Sou Lisandra Farias Duarte e meu cabelo é a minha identidade, meu reconhecimento como pessoa, acredito que faz eu ser quem eu realmente sou.

Quando eu me olho no espelho vejo uma mulher bonita, segura e feliz.

Mais nem sempre foi assim, em busca de uma perfeição muitas vezes em época de escola acordava mais cedo que o horário normal para arrumar meus cabelos, na tentativa de deixa-lo mais ajeitados sem volume e frizz que tanto me incomodavam.

A relação de uma mulher negra cm seu cabelo vai muito além do que ela vê no espelho, infelizmente estamos inseridos em uma sociedade extremamente crítica onde a perfeição se encontra em primeiro lugar.

Eu sou Laís Ribeiro. Meus braços são as minhas antenas de comunicação com o mundo… com eles eu posso abraçar, acolher, acariciar… eles também me protegem, me põem em contato com a natureza e as pessoas… por isso eu gosto tanto deles. Me mostram tanta beleza, por isso eu decidi embelezá-los também.

Por fim, eu sou Adara Guimarães de Souza, curadora desta exposição. Tenho 27 anos, há quase 5 anos compreendi que meu cabelo é lindo. Comecei a fazer tratamento para alisar meu cabelo aos 11 anos, e hoje me lembro das feridas que eram comuns aos tratamentos de alisamento. Minha cabelereira dizia: “é normal arder. Quanto mais tempo, mais liso”. Durante o momento de transição gostava do meu cabelo molhado, mas quando ele secava (vinha o volume), logo prendia porque as pessoas falavam da “juba de leão”. Detestava isso.  Aos poucos fui aprendendo a amar meu cabelo, principalmente, seu volume.

 
“Já disseram por aí que meu cabelo é de Bombril, é feio, grosseiro, ruim e de vassoura.
Porém hoje respondo que ele é beleza, memória, identidade, força e muito amor!!!”

“Neguinha sim

O meu cabelo é pixaim

Meu black power fica assim

E quer saber

Eu sou muito, muito feliz

Oh!

Ele brilha com o Sol

O meu cabelo faz um caracol

E ele é belo em Paris, Dakar, São Luiz e Maceió”

Música Neguinha Sim, do Coletivo 3 Áfricas

Ficha técnica

Coordenação de curadoria: Louise Prado Alfonso

Curadoria: Adara Guimarães de Souza

Colaboradoras convidadas: Ana Lúcia Duarte; Patrícia Fernandes Mathias Morales; Simone Fernandes Mathias; Sibele Oliveira Cruz; Amarílis Gama da Esperança e Silva; Tereza Cristina Duarte; Roseane Duarte; Ledeci Lessa Coutinho; Priscilla Teixeira da Silva; Ana Carolina Pedra Rosa; Ana Caroline Brochado da Silva; Lisandra farias Duarte; Helena Almeida; Laís Ribeiro; Macleidi da Luz; Adara Guimarães de Souza.

Imagens: Imagens cedidas pelas colaboradoras.

 

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