• Exposição virtual A Educação Pela Noite – Lucian Brum

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Meu nome é Lucian Brum, tenho 31 anos, sou estudante de jornalismo e atualmente trabalho como fotógrafo.

Exposição virtual A Educação Pela Noite – Lucian Brum

Textos: Lucian Brum (@brumlucian)

Ilustração: James Duarte (@james.duarte)





I.

Da madrugada procuro sentir o seu saber. No adiantado da hora, se manifesta o entusiasmo de malabarizar as palavras, num exercício físico, rascunhando um montão das primeiras que vem à cabeça – bandalha, encasquetar, cântaros, timtim-por-timtim, nananinanão, tirambaço, fru-fru… – até preencher o branco da folha. A esferográfica fluindo como um rio de vinho tinto, embebedando a imaginação. E não raro, após uma série de fluxo e refluxo com as letras, calço os sapatos e vou bater pernas na rua.

Errando pelos paralelepípedos iluminados, dou para pensar no meu livro inacabado, a indiferença para a ordenação dos poemas, o prazo estourado, a ansiedade do único editor que leu os originais. À parte isso, acredito terminar antes da primavera, com tempo de participar da feira. Parando na esquina do canalete, retiro do bolso da jaqueta o maço de cigarros, e não ouso fumar sem as luvas. A cerração faz com que eu enxergue poucos metros à frente, ainda assim, aqueles dois vultos que vêm caminhando ao longe são inconfundíveis para mim. Não seriam outros que deixariam o conforto de casa para sair por aí, a se esfregar no corpo da cidade.

Conheci Fausto e Fernandes numa dessas noites em que no bar do Jair habituava uma muvuca na calçada. Fausto contou ser arquiteto em uma construtora conhecida, na qual um dos sócios era amigo do seu pai e tinha dado um jeitinho para ele entrar no quadro, após o nascimento do seu segundo filho. Fernandes não sabe bem o que quer da vida, já largou a católica duas vezes, como recém entrou na casa dos vinte, repete que ainda precisa refletir para decidir um ofício. Naquela noite, eu fazia notas num moleskine escorado na parede, eles se aproximaram e mostraram interesse pelo que eu escrevia, falamos um pouco sobre poetas malditos, saudades inatingíveis, paixões suicidas, o verdadeiro amor, mas nossa prosa se entrosou mesmo quando três gurias chegaram para pedir o isqueiro emprestado, e na manhã acordamos abraçados par a par no apartamento de uma delas.

Normalmente perambulamos pelas ruas sem intenção, muitas vezes sem rumo, fazer planos nunca foi interessante, apenas transeuntes caminhando como prática estética. Olhávamos para a cidade e pensávamos; no que cada um pensava, não sei bem, eu ficava matutando sobre o grande poema que um dia iria escrever, um poema tão bonito, tão significativo, tão intenso, que não precisaria escrever mais nada, talvez eu terminasse de pingar o ponto final e caísse duro, sem ar de tanta alegria, enfartado de emoção. Mas nessa noite de nevoeiro sem céu nem horizonte, meu pensamento pouco transcende, fico alerta, todo ruído é um mistério, e o Fausto chegou convicto, estabelecendo o destino: vamos a festa de uma turma quente que conheci esses dias – e sem deixar opções, apontou – e olha ali, o Jair até fechou o bar.

Subimos dezesseis lances de escada para chegarmos ao oitavo andar, na metade da escalada, já era possível ouvir a música. Entramos em uma ampla sala, decorada com leds coloridos, apinhada de pessoas dançando em volta de um deejay cabeludo, incorporados por uma névoa púrpura que preenchia o ambiente com um cheiro intenso e adocicado. Fausto e Fernandes se dissiparam. Reparando que não conhecia ninguém, fui para próximo da janela e fiquei pescando frases de ouvido: nem acredito que ele fez isso com você, que canalha; aquele jogo foi um fiasco, não tem mais condições esse time; no réveillon eu vou pra Europa com minha mãe, agora que ela está separada, se libertou de. Eu estava no quarto cigarro quando avistei Francisco entrando por uma porta em companhia de uma guria repleta de espinhas no rosto. Passei a mão no vidro embaçado da janela, olhando para a rua era tudo uma branquidão sem fim, alguns borrões verdes faziam compreender as copas das árvores da praça, e lá que outro contorno geometrizado pelo frio, caracterizava um prédio. Assim como a cidade, me sentia enevoado pelo tunt tunt música.

Fausto parou em minha frente improvisando um sorriso debochado pela minha condição de leitor, no meio de uma festa. Eu estava folheando anotações que tinha feito na caderneta. Inesperadamente, ele mudou de expressão e me fuzilou com uma carranca tão ácida quanto caipirinha de limão cascudo, abriu a janela, se aproximou do parapeito e apontando com as mãos, praguejou: é palavras que você quer, vá atrás, pegue-as, Pelotas está cheia delas.

***

Prazer em ler e descobrir

A primeira vez em que fui à livraria Monquelat procurava o livro Um Quarto de Légua em Quadro, do Luiz Antônio de Assis Brasil. Havia me deparado com uma reportagem na Zero Hora sobre literatura gaúcha e estava ansioso para ler o autor porto-alegrense. Tinha uns 18,19 anos e imenso interesse em literatura. Naquele dia não encontrei o livro que procurava, mas fiquei impressionado com o conhecimento do livreiro e compreendi que ali voltaria seguidamente, não apenas para comprar livros.

Assim inicia a crônica que escrevi para o portal Ecult sobre meu amigo Adão Fernando Monquelat. Uma pessoa excepcional no meio literário, vendia livros e dava aulas ao mesmo tempo. É um prazer imenso participar desta Jornada Cultural em sua homenagem. Adão me influenciou em diversas leituras, em sua livraria arrematei títulos como: Os fios telefónicos, Fernando Mello; A revolta dos agachados, Luiz Carlos freitas; O homem que brigava com Deus e Vampiros, do Manoel Soares Magalhães; Pequod, Vitor Ramil; Náufrago de um mar doce, Nauro Júnior; Quadros horripilantes, Francisco de Paula Pires – esse o Adão me contou ser o primeiro romance publicado em Pelotas.

Nos últimos tempos, alguns amigos, à boca miúda, diziam que o Adão estava mais casmurro que o Delamar (tradicional taberneiro ali do porto). Em função da pandemia, fiquei alguns meses sem ir à livraria, gostaria de ter me despedido com mais proximidade. Pelotas perdeu um livreiro, escritor e pesquisador, mas sempre vou lembrar do Adão como um leitor apaixonado.

***

II.

A pior experiência que se pode ter é viajar. Dizia meu tio, quando eu lhe perguntava por que não saia da cidade, uma vez que poderia ir a qualquer lugar: a imaginação é a vivência mais importante. Ele respondia convencido, sua frase particular.

Meu tio começou a ler numa tarde em que faltou luz. Ele já não era tão criança, mesmo assim, ainda passava os dias na frente da tevê com um joystick na mão. No meio da tarde, a horas sem o seu jogo, já tinha quebrado dois copos, virado refrigerante no tapete, e minha avó o botou de castigo no escritório. Calmou. Ela achou que ele tinha dormido. Foi ver, ele estava deitado no chão segurando um livro na direção do teto. O deixou à vontade. Quando voltou, ele estava com o livro apoiado na escrivaninha. Na terceira inspeção, seguia lendo, agora deitado no sofá. Foi a primeira vez que o viu desperto para leitura, ficou feliz, entendia que ele poderia melhorar na escola com o hábito. À noite, passando ao largo da porta do escritório reparou no livro aberto jogado no chão, a curiosidade fez minha avó catar o livro e apurar que meu tio passara a tarde lendo Poemas Eróticos, de um poeta português, que meu avô havia ganhado de um amigo num aniversário remoto.

Durante a infância encontrei meu tio raras vezes. O escritório, no apartamento de minha avó, não guardava mais a biblioteca, meu tio a levou quando foi morar sozinho. Era a lembrança do pai que não pôde conviver. Fui conhecer parte daqueles livros a pouco tempo, no ano em que ingressei no ensino médio, e passei a ir sozinho consultar o acervo do meu tio. Quando comecei a estudar nos seus livros, conheci um pouco seu jeito.

Lá pelos vinte e poucos anos meu tio já era um leitor habilidoso. Frequentava um grupo que gostava de beber e conversar sobre o prazer e adversidade do mundo. Uma turma em que circulavam professores, médicos, jornalistas, arquitetos, daqueles tipos pensadores de mesa e copo na mão, ainda em formação universitária. Um dia encontrei uma foto da turma reunida dentro de uma antologia de poetas portugueses. Meu tio era o único que persistia em manter o cabelo comprido, usando um paletó amarrotado, sobre uma camiseta encardida e com a gola esgarçada. Nunca cogitou em se matricular na faculdade de letras, a qual todos diziam ser sua vocação. Agia como se viver ao acaso não fosse um tanto perigoso, às vezes, fatal.

Ainda quero entender outros detalhes sobre aquela noite, pois conforme eu soube, tudo ocorreu muito rápido. A conversa corria e as pessoas transpiravam sentadas às mesas do restaurante. O tempo estava estranhamente quente para uma noite no final do verão. O chopp gelado sustentava um instante arejado e risadas progrediam para gargalhadas. Era como se a lua provocasse mormaço na atmosfera, aflorando instintos voluptuosos, aguçando um gracejorecíproco. Tendo em vista, ela entrou acompanhada de um amigo da turma. Caminhava com leveza, perdoando os olhares imediatos com uma modéstia majestosa. Seus cabelos escuros, em contraste com a pele clara, destacavam sua harmonia lúcida. O vestido cortado com decote inocente, vestia um corpo sensato. Brilhante, seu sorriso era como um artifício magnético. Antes mesmo dela se aproximar da mesa, meu tio compreendeu que há circunstâncias em que a vida é incontrolável, se manifestando com uma força além da razão, e te deixando com cara de bobo.

Ela sentou justamente ao lado do meu tio, mas se apresentou a todos de forma geral: prazer, Diana. Estava visível o seu encantamento ao olhar para ela, em uma cena um tanto novelística, que ia provocando risos e acenos de sobrancelha entre os integrantes da mesa. Com uma voz despreocupada, ela contou a meu tio que estava na cidade interessada por consultar alguns prédios de arquitetura tombada, que tinha estudado na capital, mas vinha de uma cidadezinha lá das bandas da fronteira. O que fez meu tio revelar sua inclinação pela leitura, possuindo em sua biblioteca obras significativas sobre a formação territorial da cidade, suas edificações históricas, fotos, ilustrações, disponíveis para iniciar uma pesquisa naquele momento. Por um instante ela concentrou seu olhar no rosto de meu tio, em seguida, decidiu se aproximar de seu ouvido e sussurrar: eu vou com você. Levantaram e saíram mal se despedindo, deixando para trás o amigo que ela havia vindo visitar e a turma a fazer comentários maliciosos.

Entraram na biblioteca se beijando. Ele pegou na bunda dela por baixo da saia e ela apertou com força o seu pau. Se desvencilhando, um pouco ofegante, ela perguntou pelo livro que ele vinha contando no caminho. Aproximando-se da estante, se esticou para alcançar a prateleira lá de cima, e com as duas mãos meu tio pegou o Almanaque e o abriu sobre a escrivaninha. Folhearam duas, três páginas e não aparecendo foto, bastou um entreolhar para voltarem a se beijar. Deram alguns passos abraçados como se dançassem um noturno. Perto da brisa da janela, meu tio perguntou se ela queria procurar a fachada do casarão no Almanaque, foi quando ela lhe disse a frase que o atingiu existencialmente, na hora soou até um pouco teatral, como se tivesse ensaiado o ensinamento aprendido talvez com outros amantes: a imaginação é a vivência mais importante. E foram deitando lentamente no sofá.

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Rafael Barros

novembro 9, 2021 às 7:56 am.

Parabéns Gurizes! Grande Duo ,)