• Exposição Virtual Lembranças do Dia do Patrimônio – Pierre Chagas e Janaína Rangel

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Apresentação:

Esta exposição “Lembranças do Dia do Patrimônio” foi pensada a partir do diálogo com as pessoas. Olhamos para o Dia do Patrimônio – Pelotas buscando entender as “diversas cidades de Pelotas” que o evento compartilhou ao longo destes anos.

O Dia do Patrimônio surgiu na agenda cultural de Pelotas em 2013. Seu objetivo é celebrar as referências culturais locais, inserindo-se como uma das principais políticas públicas de cultura da cidade. É organizado pela Prefeitura Municipal de Pelotas através da Secretaria Municipal de Cultura (SECULT). A cada ano o evento centraliza as reflexões sobre a cultura através de temas tentando responder à pergunta: “Quem é Pelotas?”. Já fizeram parte das discussões as comunidades negras; as águas e patrimônio natural; o protagonismo feminino; as identidades dos bairros; as tradições, saberes e fazeres; e os grupos étnicos.

O evento já recebeu muitos prêmios, mas o principal foi o Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, organizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), na categoria “Iniciativas de excelência em promoção e gestão compartilhada do Patrimônio Cultural”.As imagens, vídeos e relatos que serão apresentados aqui nos foram enviados e compartilhados por pessoas nas redes sociais. Mostram a relação que as pessoas têm com esse evento porque guardam lembranças e hoje compartilham conosco. O Dia do Patrimônio só existe por causa das pessoas… sem elas, nada faz sentido. E para vocês, o que é patrimônio?

“As experiências de africanos e afrodescendentes em Pelotas escapavam da malha repressiva das elites, mas não podemos perder de perspectiva a vivência destes homens e mulheres negros com a repressão, o que certamente vem marcando as gerações destas famílias num ritual constante de superação”

(REVISTA DO DIA DO PATRIMÔNIO, 2014, p. 5)

“Eu tenho muitas memórias do Dia do Patrimônio, guardo algumas com muito carinho. Em 2016 na exposição do projeto de extensão “Entre o Passado e o Presente”, ao qual eu era bolsista, junto a colega Maysa, tive o privilégio de ter ao meu lado minha mãe, aluna do curso de História. A exposição foi montada no casarão amarelo, em frente ao Teatro Guarany. Das suas enormes janelas, nós víamos um casarão de esquina, pertencente a uma família nobre da cidade. Nessa casa, minha mãe começou a trabalhar aos oitos anos, acompanhando minha tia-avó.”

(Simone Matthias Fernandes, antropóloga e participante do Dia do Patrimônio)

“Ela conta apontando pela janela, aos alunos de uma escola que fazia a visitação na exposição, um pouco de sua trajetória, o tempo que ali trabalhou, os detalhes de cada cômodo da casa, que eram muitos. Da prataria usada em dias de festa, os lençóis bordados, as louças com as iniciais dos donos da casa, os tapetes imensos que eram batidos no quintal, ao lado das muitas árvores que enchiam o espaço de folhas, lugar esse que era varrido diariamente. Eu vi nos olhos de minha mãe, narrando as dinâmicas daquela casa, aquela menina negra de tranças compridas, que adorava escutar o som do piano branco, tocado na sala casa, ela lembra do aroma do chá, servido num bule de louça pintado com flores, minha mãe ainda gosta de músicas clássicas. Quando a turma se despediu, nós nos abraçamos muito forte, lembrando o passado, nossas trajetórias até a universidade pública, os passos dos nossos antepassados, nos dando a base para seguirmos em frente. Já no ano seguinte, fui convidada pela professora Louise Alfonso, a fazer uma fala na SECULT ( Secretaria de Cultura), na formação de agentes do patrimônio, contando um pouco de minha trajetória e das mulheres da minha família. Sou mulher negra, bisneta de lavadeira, a quarta geração de mulheres trabalhadoras domésticas, muitas delas não tiveram a oportunidade de estudar, começando a trabalhar muito cedo. Em minha narrativa, eu trouxe também trajetórias dessas mulheres, contando como é  trabalhar nesses espaços, pensando nas dinâmicas da manutenção, onde se precisa ter muitas pessoas, para dar conta do serviço, as festas, as comidas, os doces. Para mim estar naquele local, representava muitas coisas, me lembrei das mulheres da minha família e tantas outras, que não tiveram a oportunidade de entrar nesse espaço pela porta da frente, minha bisavó, buscava as trouxas de roupas, pela porta dos fundos. Herdei a força, coragem, persistência  e amorosidade delas. Naquele dia, depois do nervosismo, as palavras fluíram, as palmas que recebi, foram para elas e para todas que vieram antes de mim.”

(Simone Matthias Fernandes antropóloga e participante do Dia do Patrimônio)

“Mulher negra como sujeito que narra a história a partir de si. Não é uma benesse é, sim, uma demanda. As diversas cidades que compõe o tecido do sensível que chamamos de Pelotas urgem por essas histórias. Urgem para que compreenda a si própria para além dos estuques, para além da venerada Dama estancieira sentada na sala dourada, a repetir incansável a história que sempre esteve autorizada a contar”

(REVISTA DO DIA DO PATRIMÔNIO, 2017, p. 11)

“Na edição de 2016, que tinha como tema a ocupação feminina, sexta-feira é o dia reservado para atender as escolas, recebi a visita de alunos do 5° ano do fundamental no Casarão 6 da Praça. (…) Um menino, aluno da turma, observava cada cômodo da casa com muita curiosidade, ouvia atentamente tudo o que eu falava e fazia muitas perguntas. Sempre me acompanhava a cada mudança de cômodo. Uma professora no final da visita veio falar comigo, primeiro elogiou o meu trabalho e depois pediu desculpas pela intromissão do aluno “curioso” no decorrer das minhas falas com a turma, explicando que ele era um aluno com sérios problemas de comportamento na escola. Agradeci os elogios e falei que o menino não me atrapalhou em nada, pelo contrário, suas perguntas tinham muito fundamento e contribuíram com as explicações ao longo do passeio”

(Maria Eduarda Merenda, historiadora e Agente do Dia do Patrimônio 2014).

“Pelotas é uma cidade de grande variedade cultural, sua formação se deu na mistura de diversas nacionalidades, identidades e pertencimentos. Todas essas culturas foram essenciais para a concretização de uma cidade mais plural, construída nas bases da identidade e da diferença”

(REVISTA DO DIA DO PATRIMÔNIO, 2019, p. 6)

 “Em 2018, as exposição do GEEUR, também foram na SECULT, no módulo do Terra de Santo, tinha tambores, manequins com roupas brancas de religiões de matriz africana, turbantes e guias coloridas. Tivemos muitas visitações, entre elas, pessoas que participavam de um evento religioso na cidade, foi nítido o grau de espanto, olhares preconceituosos, não chegaram perto, não quiseram informações, ficaram de costas. Isso me incomodou muito, mas recebemos outros visitantes, que tiraram fotos, perguntavam e tiravam dúvidas. Alguns se diziam ser umbandistas, outros comentavam suas nações. Exposições como essa, abrem oportunidades de se mostrar um outro olhar e saberes. 

“Minha melhor memória foi do Dia do Patrimônio 2018. Eu tinha recém passado na faculdade e tínhamos que fazer o desafio dos “bixos”. O curso de Arquitetura e Urbanismo é conhecido por ter muitos trabalhos fora do horário de aula, e a brincadeira sempre é sobre os alunos virarem noites sem dormir. Então, nosso desafio era postar uma foto dormindo num espaço público junto com uma música que os veteranos inventaram. E eu lembro que fui visitar os prédios abertos naquele dia e pensei “Porque não tirar a foto aqui mesmo?” e acabei “pagando a prenda” no atual prédio do Museu Carlos Ritter, que ainda não tinha se instalado ali. Foi muito engraçado, ficou todo mundo olhando e rindo junto comigo!”

(Valentina Betemps, acadêmica do Curso de Arquitetura e Urbanismo UFPel, visitante do Dia do Patrimônio)

“Então o Hip-hop é um patrimônio cultural da cidade de Pelotas, que vem fazendo há muito tempo um trabalho de transformação social com a prevenção contra as drogas, violência e evasão escolar. E a transformação visual com o grafite que vem embelezando a cidade, dando vida à lugares ermos, tapumes, muros e evitando a pichação em patrimônio, o que na forma da lei é um crime”

(REVISTA DO DIA DO PATRIMÔNIO, 2014, p. 20)

Série Escutando a Cidade

“Em uma cidade em que os símbolos são quase monopolizados pelas figuras do Centro, o que resta aos bairros? Essa diferença fica ainda mais acentuada quando levamos em consideração as dimensões dos bairros pelotenses. Pelotas é, acima de tudo, uma cidade de bairros. A cidade não está concentrada, está espalhada por centenas de quilômetros de bairros que se desdobram sobre a planície do Extremo Sul”


Série No Passinho – (REVISTA DIA DO PATRIMÔNIO, 2017).

“Toda vez que coloco as camisetas do Dia do Patrimônio para ficar em casa lembro de minhas participações como Agente. As lembranças que tenho são bem legais, pois conheci pessoas não só da cidade de Pelotas, mas de várias cidades próximas ao município, como também de lugares bem distantes. Eu lembro que conheci pessoas de São Paulo em um dos anos que participei. Eles, inclusive, ficaram maravilhados com as charqueadas, pois muitos dos visitantes pesquisavam a história do Rio Grande do Sul e ao chegar em Pelotas vivenciaram essa cultura. No primeiro ano que participei, em 2014, lembro de estar mediando uma visita na Casa da Banha para visitantes do Uruguai que vieram exclusivamente para o Dia do Patrimônio em Pelotas. Então o evento te dá essa oportunidade de conversar com pessoas de outros lugares, no caso dos uruguaios contarem um pouco sobre como é o Dia do Patrimônio deles. Inclusive, conversaram bastante com nós, Agentes, sobre isso. Eles contaram que lá ele tem uma semana para viajar por várias cidades do país e que aqui em Pelotas o evento lembrava muito a comemoração uruguaia. Então, foram experiências bem legais, muito nessa linha de troca de ideias e experiências mostrando o patrimônio mas também aprendendo com as pessoas sobre a realidade delas e como se relacionam com esses patrimônios. Toda vez que uso as camisetas do evento, ativo essas memórias de minha participação no Dia do Patrimônio.”

(Natália Steigleder Garcia, turismóloga e Agente do Dia do Patrimônio 2014, 2015 e 2016).

“Logo quando cheguei em Pelotas fui ao Dia do Patrimônio e lembro que me falaram que era o dia em que os prédios estariam abertos para visitação, então era uma “oportunidade rara” (porque nem todos eles são abertos a visitação). Fui muito empolgado em conhecer um pouco mais da história daqueles lugares que me chamavam bastante a atenção, talvez porque na minha cidade natal não fosse tão comum. Saí com a sensação de que Pelotas fosse um lugar onde a história era viva e que aqueles prédios contavam parte dela para mim.

Série Sentindo o Patrimônio (Relato de uma Agente do Patrimônio)

Seja doce com Pelotas!

(Fotos da Agente do Patrimônio 2018 Adriana Oteiro).

Apresentação artística “Do Sal ao Açúcar – Olhares sobre Pelotas” Acervo de imagens: Pierre Chagas

“Uma mulher negra pelotense, ativista, jornalista, produtora cultural e mestranda em Antropologia refletindo sobre as resistências negras e mostrando ações do projeto Kanimambo em Pelotas, a partir da conexão entre brasileiros e senegaleses na cidade. Essa imagem me representa resistência por estar falando de temas tão urgentes e fundamentais como  violência, xenofobia e racismo em Pelotas e também expressa o encontro e a potência de várias vozes (comunidades, negres, senegaleses, trabalho informal, cultura independente, etc), muitas vezes invisibilizadas, marginalizadas e esquecidas pelas narrativas oficiais de Pelotas”

(Ediane Barbosa Oliveira, jornalista, ativista e antropóloga. Participante do Dia do Patrimônio 2016 e 2019)

“Coletividade e esperança. Essa imagem me representa o encontro de pessoas (pelotenses, de fora de Pelotas, do continente africano, da câmara de vereadores, da cultura, da universidade e das comunidades) que estiveram presentes no dia e falaram sobre suas experiências, indagações e percepções no final, expressando o quanto é necessário o espaço para o debate e reflexão na busca de ações que visem combater silenciamentos, apagamentos e  injustiças sociais.”

(Ediane Barbosa Oliveira, jornalista, ativista e antropóloga. Participante do Dia do Patrimônio 2016 e 2019)

“Vamos as minhas lembranças com o Dia do Patrimônio. Me lembro muito do ano de 2016 que aconteceu o encerramento do evento. Acabei me fazendo presente por conta de um desfile de vestuário africano com pessoas negras. Não era sobre o Kanimambo, à época este meu projeto pessoal estava recém começando. Fui até o evento convidada pela Rosália, uma amiga que trabalha com maquiagem para pele negra. Nessa época, estávamos formando o Centro Cultural Marrabenta, um espaço de cultura na zona portuária de Pelotas. Vários amigos que construíram esse espaço iriam desfilar. Então fui para ver esse momento. Chegando lá acabei conhecendo Cheikh, um senegalês que tem uma marca muito conceituada nacionalmente de vestuário africano. Esse foi meu primeiro contato com o Dia do Patrimônio de Pelotas. Lembro que tinham muitas pessoas nessa noite. O que me chamou atenção foi realmente esse desfile protagonizado por pessoas negras trazendo o vestuário africano. Isso foi algo que me tocou muito, porque já estava começando a pensar no projeto Kanimambo, que veio a se materializar um pouquinho depois. Então rolou essa conexão que foi interessante, em particular está por conta dessa presença negra, por conta desta presença afro-brasileira que se mostrou de uma maneira onde percebemos que um desfile com roupas africanas e com pessoas negras da cidade de Pelotas, ou que residem na cidade, foi um momento de resgate da negritude pelotense, de visibilidade e empoderamento da beleza negra. Isso tudo é muito importante porque nós, pessoas negras, entendemos que o cabelo e a estética também são elementos políticos, a partir do momento que vivemos num país em que se nega nossos corpos, ancestralidade e raízes. Foi um momento que me marcou muito.” 

Lembrança de 2016: encerramento do Dia do Patrimônio em Pelotas. Desfile de Vestuário Africano da marca Cheikh Africa Fashion

Se Pelotas é uma cidade múltipla, construída a partir de diferentes olhares e vivências como o Dia do Patrimônio nos comunica, você se sente representado/a/e pelas cidades do evento? Quais temas você escolheria? Você também tem lembranças que gostaria de compartilhar conosco? Nos conte através das nossas redes sociais.

Esta ação faz parte de uma pesquisa de mestrado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas. Está inserida em uma parceria entre o projeto de pesquisa “Margens: Grupos em processos de exclusão e suas formas de habitar Pelotas” do Grupo de Estudos Etnográficos Urbanos (GEEUR/UFPEL) e Bibliotheca Pública Pelotense. 

FICHA TÉCNICA

Coordenação:

Louise Prado Alfonso

Curadoria:

Janaína Vargas Rangel

Pierre Donires dos Santos Chagas

As imagens que aparecem nesta exposição foram disponibilizadas por nossos colaboradores/as/us:

Acervo Projeto de Pesquisa Margens: Grupos em Processos de Exclusão e Suas Formas de Habitar Pelotas

Adriana Otteiro

Ediane Barbosa

Natália Garcia

Simone Matthias Fernandes

Valentina Betemps

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