• Benzedeiras Negras: Ramos, Curas, e Memórias em Pelotas/RS

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MEMÓRIAS E AFETOS

Sapinho, quebranto, bicho-de-pé, espinhela caída, bronquite, cobreiro, íngua, verruga, dor de Sol, brotoeja, enguiço, peito aberto, terçol, mau olhado, moleza, ventre virado… Essas são algumas das chamadas “doenças de benzedeiras”. Por vezes, ao relembrar alguma cura recebida na
infância ou na vida adulta, vem à memória a imagem de uma benzedeira. Seja a avó, a vizinha ou uma desconhecida que foi indicada, a lembrança da figura, geralmente, de uma idosa sábia e repleta de
fé traz acalanto e esperança de cura.
A benzedura é a prática de curar, consolar, cuidar e aliviar. Ela se manifesta em todo território
brasileiro, e, por ser de tempos imemoriais, uma queixa muito comum é a de que hoje não existem
mais benzedeiras. No entanto, essa exposição tem como objetivo demonstrar que esta prática ainda
acontece e é extremamente importante para a cura e melhoria de vida da população. Este, também, é um convite para mergulhar em uma Pelotas/RS profunda, que mantém pulsante as memórias e
práticas tradicionais.

A BENZEDURA EM PELOTAS/RS

Para compreender a importância da benzedura em Pelotas/RS se faz necessário resgatar o contexto em
que as práticas de cura se manifestavam no passado.

Os povos africanos sequestrados e
trazidos para o Brasil trouxeram consigo conhecimentos sobre plantas, curas, rituais e encantamentos. Esses conhecimentos, fundamentais para a sobrevivência e melhoria da
condição de vida destes povos, também receberam influência dos conhecimentos dos povos indígenas e
europeus, o que explica a pluralidade da benzedura em seus rituais, elementos e divindades.
Estas práticas são ainda hoje armazenadas, organizadas, atualizadas e repassadas, em especial,
entre a população negra do município.

BENZEDEIRAS NEGRAS DE PELOTAS/RS

A velhice, a simplicidade, o afeto, a sabedoria, a paz. O mistério, a experiência, o dom. O “ser
benzedeira” está para além de ser a mão que segura o ramo, da voz que aconchega, do dom que cura ou
da intermediação do sagrado.
Essas mulheres atuam também como um repositório vivo de inúmeras memórias e conhecimentos que
são repassados através da fala e da observação.
Mas para benzer não é só saber, é necessário ter o dom e este pode ser descoberto após alguma situação traumática, ser entregue por uma entidade sobrenatural ou receber uma inspiração que direciona o que deve ser feito no momento do ritual.
Geralmente as benzedeiras descobrem seu dom ainda jovens, e então se dedicam a vida inteira ao
seu ofício, como é o caso de Dona Gessí e dona Casturina, que benzem há mais de cinquenta anos, duas importantes benzedeiras de Pelotas/RS, que, mesmo morando na região Norte, atendem pessoas
de todas as regiões do município.

DONA GESSÍ

“EU QUE TE BENZO, DEUS QUE TE CURE”


Na maioria dos casos a cura dos males se dá através de encantamentos em conjunto com diversos outros elementos. As rezas baixinhas e
ritmadas, quase um cochicho, atuam com ramos, formigas, pedrinhas de riacho, tecido, agulha e linha,
velas, ovo, faca, tesoura, lesmas, incenso, sal, saliva, prego, carvão, entre muitos outros.
O espaço onde ocorrem os rituais também são de extrema importância, como a casa da benzedeira, a
casa do cliente ou embaixo de uma figueira. A Lua e as estrelas também são cenários de alguns rituais.
Já elementos como mel, açúcar, água, sal grosso, ervas medicinais, etc., transformam-se em garrafadas, escalda-pés, chás, xaropes, lambedores, banhos, inaladores e demais preparos que auxiliarão
no processo de cura e reequilíbrio.

DONA CASTURINA

UM POUCO DA CASA DAS CURANDEIRAS

MANTER A TRADIÇÃO
Tão importante quanto saber que ainda existe é contribuir para a continuidade. Atualmente a
benzedura se depara com muitos obstáculos para sua perpetuação, como a perseguição sofrida pelas
praticantes, a demonização das práticas, o desinteresse por parte de pessoas mais novas em aprender e a dificuldade de acesso à elementos
utilizados nos rituais.
Para além de uma possibilidade de cura a benzedura é um recurso político e terapêutico. Essa prática e suas praticantes perpetuam conhecimentos
e memórias importantes para a comunidade, por isso a necessidade da valorização e resgate de saberes e práticas dos povos negros e indígenas.
Nesta encruzilhada de tempos e memórias em que a benzedura se dá compreende-se a necessidade de
lançar mão do sagrado e da natureza para obter a cura do diário, do cotidiano, reconhecendo a importância do passado para obter um futuro.

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Maria Rita Bednarski

novembro 18, 2020 às 12:22 pm.

Muito fui em benzedeiras na cidade, minha mãe sempre levava eu e meu irmão, era algo que tranquilizava, a gente saia leve do lugar. Adorava ir 👏🏻