• Procura-se objetos e memórias da Fábrica Rheingantz

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Procuro por vestígios de uma antiga fábrica de tecidos de lã da cidade do Rio Grande-RS. Estes vestígios nada mais são do que objetos que contam as histórias das operárias e operários da Rheingantz. Um cobertor, uma fotografia, um poncho, um documento. Objetos que estão carregadas de memórias, de sentimentos de afeto.

Que lembranças da fábrica estas pessoas guardam? Minha avó guarda a sua carteira de trabalho assinada pela fábrica, do tempo em que tinha 14 anos de idade e fazia um curso de tecelagem pelo SENAI. Ela me contou que, aos sábados, ajudava as tecelãs da Fábrica Rheingantz a produzirem os tecidos de lã.

Algumas mulheres que trabalharam como operárias relatam que ao passarem em frente a fábrica, ouvem o barulho das máquinas, como se elas ainda estivessem em funcionamento. Escutam o apito da sirene, que sinalizava o começo de um dia de trabalho. Também tem aquelas que contam histórias de quando moravam nas casas da vila operária. Outras, recordam-se que deixavam seus filhos na creche da fábrica para ir trabalhar.

E tu, que memórias tens da Rheingantz? Tens familiares ou pessoas conhecidas que trabalharam na fábrica? Quais são as suas histórias? Tu guardas objetos (fotografias, cobertores, roupas, documentos, entre outros), que te fazem lembrar do teu trabalho ou de algum familiar na fábrica?

Sinta-se à vontade para me contar suas histórias ou compartilhar suas fotografias de objetos relacionados à Fábrica Rheingantz, após conferir esta exposição arqueológica digital.

“Minha bisavó materna trabalhou com tecelagem na fábrica da Rheingantz, por volta dos anos 50. Minha mãe conta que quando abriu a loja da Rheingantz, a partir dos anos 70, a bisa já estava desligada da Fábrica… mas recorda que em todo inverno ela comprava peças confeccionadas lá, como cobertores, casacos pesados e ponches. Por motivos de doações, hoje nos restou apenas um cobertor daquela época. É muito lindo, um dos meus favoritos. Traz a minha mãe boas memórias de junto a sua avó.”

Paula Boroni, bisneta de Celina Silva da Rosa

“Essa jaqueta foi feita pela mãe, a mais de 25 anos com retalhos de lá da Rheingantez. Guardo pelo valor estimativo. Foram sobras de tecido, que ela tinha feito uma camisa pro meu marido isso lá pelos anos de 1988, quando compramos na loja que tinha tecidos e os famosos cobertores, que ainda tenho também, a mãe fez uma jaqueta pro meu marido e uma camisa de lá, da sobra ela fez essa jaquetinha pro meu sobrinho, que o meu filho também usou.”

Cleonice Ayres, filha de Ana Adelina Gutierres

“Fui criada ouvindo falar de teares, tecelagem, fios, maçarocas e outros termos relacionados ao trabalho de uma tecelã. Minha mãe trabalhou na RHEINGANTZ. Inclusive quando casou ainda trabalhava lá. A mãe já faleceu há 24 anos, mas meu pai ainda hoje, com 94 anos, relembra com saudades a época de namoro e de ir buscar minha mãe na saída da fábrica todas as tardes para acompanhá-la até em casa. Moro em São Paulo há 45 anos, mas sempre fui muito à Rio Grande por conta dos pais que ficaram aí. Na minha memória a fábrica esteve fechada por alguns anos. Não sei se procede, mas sei que nos anos 80 a fábrica voltou a funcionar. Fazer uma visitinha à lojinha da RHEINGANTZ fazia parte da minha agenda. E eu pude adquirir vários produtos ali confeccionados.”

Catarina Votto

“Fazem 23 anos que minha avó faleceu, mas lembro que ela falava muito quando haviam as greves. Ela era analfabeta, mas era muito interessada, participava das manifestações. Eu tinha uma tia, cunhada de minha avó, a tia Rita, que trabalhava nos tapetes. Minha avó trabalhava nas máquinas de fuso. Aquelas que colocam linha nos carretéis. Minha mãe não lembra quantos anos minha avó trabalhou na Rheingantz, mas sabe que em 1951 já trabalhava lá e se afastou em 1967.”

Leda Maria Balota Gomes, neta de Galdina

“A maioria de nós, papareias, tem uma história minimamente pra lembrar, que transita pela Fábrica Reighantz que, durante anos, foi orgulho de todos rio-grandinos. Minha mãe trabalhou na fiação. Pareço ver suas mãos em movimento nos teares quando nos contava sobre e com os olhos brilhantes de saudade. Quem não adorava um ponche, um tecido para confeccionar um casacão, ou simplesmente uma manta xadrez para aquecer o pescoço nas noites de rigoroso Inverno tão habituais nossas? Hoje, chego até ti, por pedido de minha querida prima, Tania Severo, há muito tempo vivendo em Sampa, mas o coração eternamente papareia. E a foto que nos enviou é de um cobertor de casal da Reinghantz, recebido de presente de casamento em setembro de 1961. Que a acompanha até hoje. E quando me diz: – ‘amarelo ouro de um lado e amarelo claro do outro, mas já está velhinho’; percebemos todo o carinho com a recordação.”

Relato de Estela Chaplin sobre o cobertor de sua prima, Tania Severo

“Eu tenho um poncho era do meu pai. Eu lembro desse poncho desde criança, não consigo te precisar exatamente o ano, mas acredito ser da década de 70 considerando que eu tenho 45 anos.”

Anderson Souza

“Esse ponchinho foi comprado em 1978 pra minha amiga. A filha hoje com 18 anos também usou quando criança.”

Cleonice Ayres

“Tenho um casaco. Ganhei este casaco quando tinha 17 anos, passava pela loja e ficava namorando ele até que um dia ganhei da minha mãe, até hoje o uso, seu corte é reto e tem uma pala na frente e capuz é um casaco que pode ser usado com roupas mais despojadas ou mais clássicas, adoro ele e esta em bom estado ainda. Adorava os produtos desta fábrica.”

Rosani Oliveira

“Meu pai trabalhou desde os 14 anos na Rheingantz o nome dele era José Luiz da Costa chamado por Pirilampa. Minha mãe também trabalhou anos e fiquei de herança vários cobertores, mantas pura lã, poncho, jaquetas.. Esse cobertor tenho certeza que foi meu pai que fez na fábrica RHEINGANTZ. É Muito antigo. Eu guardo de lembrança da fábrica RHEINGANTZ e dos meus pais que trabalharam lá.”

Malucelli Ocds, filha de José Luiz da Costa

“Minha mãe era tecelã. Tenho até a polegada que ela deixou comigo. Servia para medir o tecido que ela estava tecendo. Toda tecelã tinha uma polegada. Vale mais que ouro pra mim.”

Malucelli Ocds, filha de Jercy Soares da Costa

“Minha tia avó era costureira da fábrica. Meu Avô foi responsável pela tinturaria por muitos anos. A geração dos meus tios avós todos trabalharam na fábrica. Inclusive nós, moramos por muitos anos ali nas casas, que era destinada aos operários. Acredito que a peça laranja minha tia avó que costurou. Alfaiate era o seu Oscar. Então sempre que saia um modelo novo ele dava pra ela fazer.” Nanda San, sobrinha neta de Wilma Sant’Anna Oliveira

“Trabalhei na costuraria. Fazia poncho e jaqueta. Não lembro se por dois ou três anos. Depois ela fechou. Guardo carretéis que eram da costuraria da fábrica.”

Maria Marilena

“Este cobertor e esse ponche foi feito por mim quando trabalhei na fabrica tenho boas Lembranças não me desfaço deles.”

Laureci Bastos Antonio

“A camisa comprei um pouco antes da loja fechar. Não me desfiz dela porque sabia que era uma peça de uma fábrica importante para a cidade. Sempre disse: Esta camisa é uma relíquia!!”

Leda Maria Balota Gomes

“Toda história de vida da nossa família envolve a fábrica. Meu avô era da tinturaria. Quando ele se aposentou, continuavam chamando ele. Porque os químicos não acertavam nas colorações, enquanto ele que não tinha estudo nenhum fazia tudo. Lembro que vivia indo com ele pra dentro da fábrica. Com aqueles enormes blocos de lã. A fábrica ainda tem alguns maquinários completos dentro do complexo. Tem (tinha) uma parte… Naquelas janelas grandes ao lado do antigo união fabril. Ali tinha as máquinas de costuras ainda com as linhas na agulha. Tecidos e botões de tudo que é tipo. Moldes de todas as roupas fabricadas. Eu entrei nessa parte faz uns 8 anos eu acho. Era como se voltasse no tempo. Não sei se ela ainda existe.”

Nanda San, neta de Daniel Soares Sant’Anna

“Eu tenho esse cobertor da foto ele foi presente da minha tia a minha filha quando nasceu, isso faz 31 anos e o temos em uso até hoje.”

Jaqueline Gruber

“Ganhei este casaco da minha mãe, acho que 1995. Era recém um estudante de história da FURG, está comigo até hoje.”

Francisco Villa Guarani Kaiowá

“Trabalhei no Sindicato… ainda existe o prédio que fica Buarque de Macedo com Teixeira Júnior. Esse é meu ponho que adoro!”

Elaine Maria Silveira

“Eu tenho uma manta. Comprei a loja estava em liquidação pois iria fechar, ou quase fechando, faz mais de 36 anos !!!!”

Dóris Gerundo

“Sobre o poncho do meu vô:  ele ficava pendurado em um cabide no corredor, na estância, em Bagé. Inverno e verão. Para mim, fazia parte da casa. Ficava encantada com as cores: azul por fora e vermelho por dentro. Era muito pesado. Ele só saía do cabide nos dias frios e chuvosos de inverno, quando meu vô montava o cavalo e ia para o campo. Meu vô dizia que era o melhor poncho do mundo. Não passava nem frio, nem água. Quando voltava do campo, o poncho voltava para o cabide no corredor. Acho que ele ficou no cabide durante toda a minha infância e adolescência. Sumiu junto com meu vô…”

Beatriz Thiesen

“Nunca me desfiz desse cobertor! Meu paizinho chegando e cobrindo-me jamais sairá da minha memória! Minhas filhas também usaram! Tal coberta tem 40 anos e continua intacta!”

Cíntia Oliveira

“Minha mãe era ‘tecedeira’, trabalhava nos teares.  Muitas histórias me contou, como, havia noites (ela fazia serão para ganhar mais) em que, na época da guerra, os alemães sobrevoavam o céu e as indústrias tinham que desligar suas luzes para não serem bombardeados. Nesse momento todas as máquinas paravam e tinham que esperar os aviões se afastarem para iniciar novamente o trabalho. As mulheres eram uma grande força de trabalho, na época, mas seu valor era desconhecido. Normalmente ganhavam menos que os homens. Hoje já somos mais reconhecidas mas ainda há muita desvalorização.

”Rosemare Gomes Ramalho, filha de Maria do Carmo da Costa 

“Eu trabalhava no preparo…fazia as franjas das mantas…e também trabalhei na parte de limpar…ou seja tirar aqueles fios que ficavam meio embolados nas peças …cheguei ter noções de cerzir… foi um tempo muito bacana…conheci pessoas incríveis e aprendi muito. Minha filha ficava na creche que a fábrica mantinha ali. Ainda temos os ponchos…”

Zenair Ortiz

“Meu pai foi contramestre, tenho o curso de tecelagem que meu pai fez.

Meu pai entrou com 14 anos, conheceu minha mãe na fábrica, foi contramestre, uma espécie de programador dos teares, que programava quantos fios de cada cor passava para fazer uma flor no meio do cobertor.”

Sergio Soares da Costa, filho de José Luiz da Costa

“Eu tenho essa camisa de lã que eu comprei em um brechó. Custou 15 reais e a moça que me vendeu tentou me dissuadir da compra depois que eu mostrei a etiqueta da fábrica. Esse casaco é o meu xodó e eu uso ele sempre que posso. Pessoas mais velhas ficam olhando e eu imagino que devem reconhecer o padrão da estampa.”

Rosali Alves Colares

A narrativa oficial de patrimônio da cidade do Rio Grande conta apenas a história das elites. Dessa forma, acaba silenciando outras narrativas de pessoas que foram importantes para a construção do município, como as/os operárias/os. Os objetos e as histórias que fazem parte desta exposição são patrimônios e tem de ser reconhecidas como tal. As histórias das trabalhadoras e trabalhadores da Rheingantz devem ser valorizadas. Afinal, se não fosse pelo seu trabalho, os cobertores, mantas, ponchos e casacos, que fazem parte das memórias de tantas pessoas, não existiriam. Aqui, reafirmo aquilo que não devemos esquecer: Rio Grande foi construída por operárias/os e suas narrativas não podem ser apagadas!

Esta exposição arqueológica digital foi pensada por Vanessa Costa (mestranda em Antropologia com área de concentração em Arqueologia pela UFPel), no âmbito da disciplina “Cultura e Patrimônio: debates de temas e conceitos e transposição de saberes”, ministrada pelas professoras Louise Alfonso e Flávia Rieth.

E-mail para contato: vanessaavilacosta@hotmail.com

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Glaci Avila Costa

julho 28, 2020 às 1:56 pm.

Belíssimo trabalho, meus parabéns grande orgulho!!

    museuhistorico

    julho 29, 2020 às 8:25 am.

    Obrigada, continue acompanhando nossas redes sociais e nosso site.
    Esperamos que fique bem, abraços!

Sabrina Meirelles Macedo

julho 28, 2020 às 4:34 pm.

Parabéns pela exposição, lindíssima!
É muito importante que as pessoas se percebam como parte da História, que suas vidas cotidianas e suas memórias constituem o tecido de um todo maior!

Anderson Pires de Souza

julho 28, 2020 às 8:22 pm.

Belíssima iniciativa que conta e valoriza a história da indústria têxtil no Brasil, e em especial no município de Rio Grande.

Julia helena Harkins guedes

julho 29, 2020 às 8:39 am.

Adorei!!! Aqui em casa tbm temos cobertores da fábrica super conservados. Guardo lindas lembranças das pessoas saindo da fábrica qdo meu pai nos trazia do colégio para nossa casa na linha do Parque❤️💫

Thaynara Garcia de Oliveira

agosto 23, 2020 às 9:44 pm.

Meu avô foi motorista particular do Dr João Rheingantz com 19 anos após o fechamento da mesma passou a ser funcionário da Cia . Fazia viagens com o caminhão onde onde trazia lã para confecção dos tecidos e cobertores depois foi motorista da Comb que fazia a venda dos mesmos. trabalhou se aposentou é somente saiu aos 72 anos por motivos de saúde onde veio a falecer. Tenho poncho cobertores que vou add fotos em breve. Meu avô morava na casa 434 da Av.presidente Vargas e no portão tem as inicias de seu nome .H.A.G. saudades.

Richard J. R. Grantham

agosto 23, 2020 às 11:04 pm.

Meu avô Jorge Ruffier era Engenheiro Chefe e seu Cunhado Pierre Parmentier quem desenhava os tapetes.

Cris

agosto 29, 2020 às 11:46 pm.

Parabéns pelo trabalho! É muito emocionante ler esses relatos. Moro em Rio Grande, ao lado da fábrica, e sempre me encanto pelas histórias de vida que ali aconteceram/fizeram parte.

Maria Nina P.Vianna

setembro 13, 2020 às 1:42 pm.

Saudades dos verdadeiros agasalhos, do meu casaquinho quentinho